Sobre as árvores.

Um ser fantástico certa vez encontrou-se comigo em uma tarde ensolarada. Era uma tarde de sol, porém uma chuva fina e refrescante resolveu aparecer para uma breve visita. Um dia de chuva com sol é sempre muito belo, e desde garoto mexeu sempre com meu coração. Naquela tarde não foi diferente.
 
O ser sentado no cravo ao meu lado concordava comigo. Fumava suas ervas doces em seu cachimbo engraçado, feito de alguma coisa que eu não soube identificar. A cor era amarela, era delgado e longo. O pequeno ser pitava com prazer esse cachimbo minúsculo, minúsculo para mim, ao menos, pois para ele era do tamanho perfeito. 
 
Ele me contava, com sua boca pequena histórias bastante interessantes sobre as árvores. De como elas eram seres amáveis e de grande sabedoria. A maioria delas eram como grandes mães, ou talvez avós. Bastante acolhedoras, abraçando ao mundo com suas raízes.
 
Fiquei surpreso e encantado ao saber que o sonho de toda árvore é ser abraçada. Abracei uma delas naquele mesmo dia.
 


As árvores são mais vivas do que imaginamos. Elas sentem, amam, conversam, e sabem de tudo o que acontece ao redor. Elas podem se comunicar a distância, pois se conectam umas às outras através da grande mãe terra. Comunicando-se a grandes distâncias e sabendo o que ocorre por todo o mundo, ou boa parte dele.
 
No mundo das árvores, as frutíferas são as que mais sofrem, pois têm muitas vezes seus galhos podados, e isso lhes machuca. Mesmo assim elas entendem que é necessário, afinal para estas árvores o maior prazer é alimentar aos seres da terra, principalmente a nós.
 
Outras que sofrem são as árvores da cidade. Sofrem por geralmente estarem sozinhas e cercadas de concreto, sofrem pelas podas, e principalmente pelo que ouvem. Sim as árvores "ouvem", não com ouvidos como nós e sim de um outro modo que não nos cabe no entendimento, e elas ficam entristecidas com certas coisas que escutam das pessoas que circulam ao seu redor. Árvores conhecem muitos segredos e verdades indigestas de nós, sendo que muitas vezes adoecem.
 
O ser me lembrou da amoreira que havia secado no parque próximo dali, me explicou que ela ouvira coisas muito tristes de homens que ali frequentavam à noite e por isso adoeceu, desistindo das pessoas. Assim no último outono esta resolveu dar algumas poucas frutas, todas no topo de seus galhos, longe do alcance dos homens, mas ao alcance dos pássaros serelepes. 
 
Ele continuou a falar por muito tempo.
 
Quando ele parou a chuva estava toda na terra, o sol já se retirava deixando para trás uma débil luz acolhedora. Eu bocejei depois que o pequeno ser deu uma pausa silenciosa. Ele me olhou segurando o cachimbo na frente da boca, me sorriu, sem mostrar os dentes, mas fechou os olhos ao fazê-lo, o que tornou seu semblante bastante carinhoso. “É hora de eu ir”, disse ele, “Já descansei por demais. Meu turno recomeça no próximo minuto”.
 
Minha resposta foi uma leve expressão de desapontamento. Como quando se come o último pedaço de pizza e ainda se tem fome.
 
Ele sorriu de novo e disse: 
 
“Em breve nos veremos de volta. Afinal há verde brotando de qualquer rachadura”

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