A menina das flores e o rato determinado.

Em uma pequena caverna, tão pequena que mal se espremia um ratinho vivia uma garotinha. Esta pequena menina era dissociada do mundo e vivia apenas colhendo flores. Flores de todos os tipos. Lírios, margaridas, rosas. 

@aeppol


Ela era solitária e silenciosa e todos que a viam, o que não eram muitos; pois a pequena era sorrateira e misteriosa, não entendiam o porquê dela colher tantas flores.

 

Todas as manhãs lá estava ela com sua charrete capenga balançando e ameaçando desmontar a qualquer momento, percorrendo os vales, bosques e montanhas. Ela fazia isso até a tarde, quando voltava com sua charrete carregada de flores, o que para nós não eram muitas flores, já que para ela qualquer mirrada flor era imensa.

 

E assim a menina miúda seguia sua vida. Colhendo flores todos os dias.

 

Um dia um ratinho bem conhecido da vizinhança enfiou em sua miúda cabeça de rato que queria descobrir o que esta menina fazia com tantas flores. Seus amigos ouvindo essa ideia pouca atenção lhe deram, pois a menina era quase uma lenda ali e muitos acreditavam que ela nem existia.  

 
rato ilustração vintage fábula 

Mas sem se importar o rato determinado decidiu que iria descobrir o que a menina fazia com tantas flores.
 

E assim o rato ficou de prontidão, esperando a menina aparecer. Ele havia a visto duas ou três vezes andando pelo bosque perto de seu velho casebre o que já era masi vezes do que qualquer um das redondezas já avistou a pequena.

 

E ali ficou o rato toda manhã. Esperou, viu ratos a passear, viu uma cegonha namoradeira e sua namorada cegonha, viu uma tartaruga em seu cooper matinal, viu uma coruja velha indo sabe-se lá para onde, viu um tatu cavando buraco, mas nada da menina. A manhã passou e nada da menina. 

 

Mas o rato era o rato determinado e decidiu esperar mais. Assim ele abriu mão de seu sagrado almoço e lá continuou. Um rato não desiste tão fácil.

 

Desse modo a tarde passou. Uma cobra rebolou pela relva do bosque, pássaros passaram festeiros, a tartaruga da manhã passou para o outro lado voltando de sua corrida matinal, uma garça pomposa veio lhe incomodar o sossego lhe despejando perguntas sobre o que o rato fazia ali parado, enfim, toda bicharada passou pelo bosque, mas quando o sol também passou não se viu sinal da pequena menina.

 

O rato cansado e regado de fome se chateou, mas não desanimou. Continuarei amanhã, afirmou ele a si mesmo.

 

Amanhã encontro ela” falou alto para uma mariposa lustrosa que passava perto dele. Ela o olhou com pompa e o ignorando sumiu na mata.

 

No outro dia o rato decidiu esperá-la na vale atrás de sua casa. Um vale belo e verdejante que ficava aos pés da bela montanha. O rato determinado sentou sua bunda miuda de rato em um banquinho improvisado em uma pedra atrás de um pinheiro guardião e ali esperou.

 

De novo a manhã passou assim como todo tipo de bicho e nada da menina. O rato determinado a ver a menina cruzou os braços e disse “vou até o fim agora” e com o olhos cerrados mostrou sua determinação para o dia que passava.

 

De tarde se deu o mesmo, bicho indo e vindo e nada de menina. O sol correu todo o céu e se aninhou do outro lado do horizonte indo acordar uma outra terra e nosso amigo rato ficou ali no escuro da noite, esperando um pouco mais dessa vez. E logo foi para a casa.

 

Porém ele ainda não desistiu, foi apenas dormir e encher a barriga de rato que reclamava para ter forças para continuar sua busca no outro dia.

 

No outro dia logo cedo, mais cedo do que nunca lá estava o rato determinado de pé, pronto para achar a pequena menina. Dessa vez ele subiu a montanha e se sentou em uma pedra alta espreitando a passagem abaixo dele, esperando esperançoso a passagem da menina.

Mas o dia veio e foi e nada da menina.

 

E o rato desistiu? Não! Até o fim” repetia ele para si mesmo. 

Na cama ele dizia para si mesmo “até o fim” e dormiu sonhando com isso.

 

No outro dia o rato determinado agora mais teimoso que determinado foi até o campo do outro lado do vilarejo e lá se escondeu atrás de uma árvore. Mais nada da menina. Nem de manhã nem à tarde nem mesmo à noite.

 

E o rato sorrindo falou ‘amanhã eu a vejo”.

E no outro dia não viu nada.

E assim uma semana passou.

 

Depois de tanto tempo procurando o rato soube por outros bichos que alguém viu a menina perto da casa dele no dia da lua nova. O dia da lua nova foi o dia que fui procurar a menina no vale, e um dia antes eu procurei ela no bosque perto de casa.

 

E depois o macaco velho seu amigo, falou que no dia que encontrou o rato na montanha ele viu a menina a perambular pelo vale no pé da montanha. E a cobra bailarina disse que viu a menina na montanha no mesmo dia que o rato estava no campo do outro lado do vilarejo. E depois sua mãe rato disse que o dia que foi procurar o rato em casa a menina estava passando em frente sua casa, mas o rato estava no bosque procurando a menina.

 

O rato arregalou os olhos e correu para o bosque atrás de sua casa. Gritou pela menina uma, duas e três vezes. Gritou mais um pouco e cansado se jogou em um punhado de folhas ao lado de um arbusto florido. Olhou para o céu da mata piscando pesado e adormeceu. Sonhou com flores, muitas flores.

 

Cansado de tantos dias atrás da menina o rato determinado agora era um rato cansado e dormiu ali mesmo toda a noite.

 

Quando de manhã o rato acordou com uma ranjeção de madeira e folhas ao lado dele. Sonolento, ele se sentou esfregando os olhos que tentavam permanecer abertos. Esfregou uma vez e viu um movimento borrado na sua frente. Esfregou de novo e o borrão ganhou a forma de alguém pequeno. Esfregou outra vez e o borrão ganhou uma cor rosada. Esfregou de novo e o borrão se desenhou em uma linda e miúda garotinha.

 

O rato de um salto arregalou os olhos. Ele pensou em gritar, ele pensou em colocar a menina em um potinho, ele pensou em chamar a todos, ele pensou em fazer mil perguntas à menininha, mas no fim ele se sentou e apenas observou.

 

A menina tinha a pele da cor da terra e seus cabelos eram da cor do tronco da goiabeira. Seus olhos eram grandes amarelos e despreocupados. Sua boca era travessa e seu corpo era desligado e miúdo. Era uma criaturinha linda de se ver. Ela olhou para o rato ali e nem lhe deu bola, se ocupando apenas de manobrar sua charrete de bambu e madeira não muito bem feita.

 

Ela a puxou para fora de uma toquinha pequena que o rato nunca havia nem notado atrás de sua casa. 

 

Limpando o suor do rosto a menina olhou na direção do rato cansado e seus olhos sorriram. O rato sem graça se ajeitou ao ver a menina indo em sua direção.

 

Ela se aproximou com a mão estendida e o rato arregalou os olhos e as narinas sentindo um perfume doce no ar. Mas ela passou por ele como se ele nem estivesse ali, e agarrou uma bela florzinha no arbusto atrás do rato. 

 

O rato se virou e pode ver que o cabelo da menina era cheio de pólen  e cheirava bem. O rato se sentou mais distante e apenas apreciou em silêncio a menina silenciosa que ele tanto procurou e que morava atrás de sua casa. 

 

Procurou e procurou, mas no fim ela o achou.


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