O que a imaginação pensa sobre a chuva...

Trecho do livro Acolhidos. 

[...] Olhava pela janela, a chuva torrencial a cair no jardim. Eu observava ao seu lado. Era uma visão linda. Toda aquela água despencando do céu. Eu me pegava imaginando como isso era possível. Primeiro acreditava que era o tal Deus, que a mãe da Kassi dizia que morava nos céus. Talvez ele esteja lavando a casa ou algo assim.

 

Depois de alguns anos, abandonei esta ideia infantil e absurda. Passei então a pensar no fenômeno como um estado emocional da própria natureza.

 

Um momento de dor. Quando ela, saturada das feridas abertas pelas mãos de seus intrépidos e irresponsáveis filhos; os quais ela própria rege a vida; e cansada das atitudes atrozes destes, sucumbe a tristeza e despenca em pranto.

 

Essa era a chuva. A decepção da natureza diante da ingratidão e corrupção humana. Como uma mãe que chora ao sentir a faca fincada no peito, faca esta, que chegou lá, pelas mãos do filho que ali; outrora; se nutriu.

 

 No entanto, mais alguns anos depois, com a Kassi já frequentando a escola, vim a saber que a chuva nada mais era que água levada do solo aos céus na forma de vapor. Vapor este resultante do efeito do calor sobre as moléculas da água.

 

Por sua vez, já nos céus essas moléculas retornam a esfriar, condensando-se. Uma vez de volta ao estado líquido, são incapazes de serem sustentadas pelas correntes ascendentes, o que acarreta na precipitação.

 

 Nunca gostei dessa versão, mesmo sendo a verdadeira. [...]



 

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