Bolo da Lua



Da lua escorria um caldo.

Era doce. Sim, o caldo era doce, bem doce. Eu gostava.


Toda a noite minha mãe subia no telhado. Ela adorava o céu noturno. Então quando construiu a casa tratou de fazer uma escada que desse acesso ao telhado. A escada não era lá essas coisas, mas servia ao propósito.


Assim eram todas as noites. Desde que não chovesse lá estaria ela vendo o céu iluminado pelas estrelas e seu astro preferido. A lua.


Sim, minha mãe amava a lua. E acho que de algum modo a lua também lhe amava. 


O brilho da lua
A lua cheia
 

Outra coisa que minha mãe amava era sua cozinha. Ela mesma a ergueu com seu suor e boa vontade. 

Era lá que ela praticava sua alquimia doce. Os melhores doces que se encontraria na vila ou em qualquer vila de toda aquela velha terra, seriam os dela. 


Seu maior prato era um bolo delicioso que ela cobria com uma calda branca que parecia o próprio néctar das ninfas. Ela chamava o bolo de bolo da lua e contava que foi sua mãe que lhe ensinou e que a mãe da mãe dela a ensinara antes disso. E o fazia apenas nas noites de lua cheia, mas só o cortava na noite de lua nova. 


O que eu não entendia é como o bolo não estragava esse tempo todo. O segredo era a lua, dizia ela. De qualquer modo eu não entendia.

Talvez o tempo todo de espera fosse o segredo.


Assim era a vida de minha mãe. De dia na cozinha, de noite no telhado. Assim sempre foi até o solstício de verão do ano das nozes.


Naquela lua cheia minha mãe parecia estranha. Silenciosa, seus olhos pairavam serenos pelo ar e parecia não estar presente. Se eu falava com ela ela sorria e me afagava a cabeça.

 

Em uma noite ela me chamou para cima do telhado. 

Lá com ela observei mudo o caminhar lento dos astros brilhantes.

 


De manhã ela me acordou cedo. Me chamando para a cozinha. Estranhando eu fui.

Se passaram dois dias e ela me ensinou a fazer o seu bolo da lua. Me mostrou cada detalhe, cada segredo e me acompanhou de perto no feitio do bolo.

 

"Por que me ensina?" Perguntei por uma vez. "Já é hora" respondeu ela me chamando a atenção para a massa que mexia.

 

Assim no fim da tarde do segundo dia eu tinha a massa do bolo assado e desinformado.

"E a calda?" Perguntei.

"Só na lua cheia" disse ela me beijando na testa.

 

Sem entender concordei e aguardamos o bolo em guardado em uma cesta bem vedada no seu armário.


Naquela noite minha mãe assistiu ao viajar dos astros sozinha.

E na manhã seguinte ela não apareceu. Na cozinha não a encontrei. Ela sempre estava ali de manhã preparando bolinhos e algum chá de ervas. 

Mas naquela manhã não estava. 

 

Procurei por toda a casa, mas nada dela.

Fui aos vizinhos, a mercearia, no bosque e em todos lugares que ela costumava estar mas não a encontrei.


Assim os dias se passaram e não encontrei minha mãe. Já havia procurado e chorado e agora um sentimento mudo me silenciava a alma.


Na noite de lua cheia eu chegava em casa e no topo do céu o astro que minha mãe tanto amava brilhava forte sobre o nosso telhado. 



Uma lágrima se formou em meu olho, mas não chegou a correr por meu rosto. 

Subi a escada e lá em cima no telhado me sentei para observar o belo astro. 


Fiquei lá alguns minutos. Quando o vento chacoalhou um pequeno papel amarelo preso na chaminé ao meu lado. O peguei. Havia algo escrito.

 

"Estou bem" É hora de terminar o bolo" estava escrito em letras gracisamente riscadas no papel que minha mãe embrulhava bolinhos

Olhe para a lua brilhante. Sorri com as lágrimas agora correndo meu rosto.


Desci rapidamente a dispensa e recolhi a cesta com o bolo. Subi as pressas a escada com o bolo em mãos.

 

Só lá em cima pensei. "Porque trouxe o bolo aqui?".

O abri do pacote amarelo e lembrei. Ainda precisava do caldo. Sem o caldo ele não era o bolo da lua.  Mas ela não me ensinou. 


Coloquei o bolo na cesta e me sentei no telhado encolhido em torno de meus joelhos. E agora, pensei. Enfiei o rosto nos joelhos ali encolhido me pus a chorar. 


Assim. Fiquei por minutos. 

Quando um gotejar me chamou a atenção. Sentindo algo na cabeça pus a mão esfregando o líquido em minha cabeça.

 

Olhei. Uma substância viscosa.

O aroma familiar me encheu as narinas.

Provei. Doce.


Era o caldo de minha mãe.

Levantei a cabeça esperando vê-la de algum modo com uma tigela cheia de caldo me sorrindo. Só vi a lua sorridente.


Lhe olhei pasmado por um breve instante. Quando dela vi uma gota de luz escorrer descendo todo o negrume do céu e pousando em minha mão. 


Provei de novo, era o caldo da mãe. Sem me por a pensar peguei o bolo na cesta e ergui como se o oferecesse a lua. 

Mais luz escorreu, descendo até o bolo. 


No outro dia chamei a todos da vila. E comentamos a ida da mãe para sua viagem com os astros luminosos.

Todos comeram bolo da lua em honra a minha doce e iluminada mãezinha.

 





 


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