Sobre Amar



A noite já havia se acomodado nas dunas outrora douradas. As ondas chacoalhavam em seu vai e vem incansável, cantando melodiosamente sua velha canção.  
 
Sob a luz do luar eu a observava brilhar como o próprio astro da noite. Seu cabelo ondulado balançava ao vento se confundindo com o mar. 
 
Ela me olhou admirá-la. Olhos cinzentos e luminosos como a lua prateada. 
 
- Te amo! - soprei a ela as palavras querendo expressar meu amor.
 
Ela riu. Sem nenhum um pouco se importar.
 
- Não valoriza este amor? - perguntei sentindo um alfinete me incomodar.
 
- Tens mesmo amor? - perguntou ela plácida tirando uma mecha de cabelo do rosto, sem me olhar.
 
- Mas é claro. Assim como o oceano tem peixes. - afirmei mostrando as águas a brilhar em frente de seus olhos.
 
- Me amas ou me desejas? - indagou ela agora me olhando com olhos a sorrir.
 
- Ambas as coisas! -  lancei a resposta confiante.
 
-  Tolo és! - disse ela sorrindo olhando a areia sob seus pés.
 
- Pois não acreditas no amor? 
 
- Ah acredito, mas amor é um engano, não porque não exista, mas só porque as pessoas o confundem, o tempo todo. Se apaixonam e se apegam e acreditam que aquilo é o amor em sua essência.
 
- Vivem uma paixão que se apaga facilmente ao contato da água gelada. E uma relação fundamentada na mera paixão, no desejo, no apego e na dependência é um mar tempestuoso, onde se encontras perdido, a bordo de um pequeno barco a vela. Na maior parte das vezes nem sequer possui remos e é claro, não sabes velejar.    Então fica a esmo levado pelos ventos da desilusão, que ventam ferozes atiçando suas velas. Se não saíres logo desse caminho perigoso eles o levarão a recifes, onde pedras afiadas despontam d’água. Lá seu barco se despedaçará e perecerás nesse “amor”.
 
- No entanto, não fique desolado. Não quero que desista do amor, pois sim ele existe, só é raro. Então talvez, devais aprender a velejar antes de lançar-te nesse mar grandioso, pois ele também pode ser uma aventura bela e gratificante se souberes quais ventos o levarão ao verdadeiro horizonte do amor.
 
A ninfa cintilante silenciou suas palavras assim que a lua se escondeu por trás de uma nuvem cinzenta. Mudo a olhei, até a luz desvanecente torná-la uma mera silhueta.
 
Ela voltou seus olhos para mim e mesmo sem luz pude vê-los brilhar. Pude notar que ela sorria. Pisquei lentamente e um beijo doce de seus lábios pingou em minha testa. 
 
Eu vou, mas volto no próximo luar. Atente-se aos ventos e tente aprender a velejar- cantou ela por fim entrando nas ondas escuras e desaparecendo no mar.
 

Permaneci ali por mais boas horas, mudo, no silêncio, olhando o escuro tempestuoso do mar. 


 


0 comentários