O Velho no Farol

A luz do farol girava ao longe...

Hoje acordei mal. As ondas batiam na costa e as gaivotas gritavam umas com as outras. Olhei pela janela e o sol já estava uns três palmos acima do horizonte.

Ah e lembrar que eu já amei aquela visão, o brilho dourado se misturando ao azul intenso das ondas batendo contra a praia, o jogo de sombra e luz surfando a maré direto em meus olhos, assim eram todas as manhãs.

O que será que houve comigo? Hoje vejo as ondas, mas não vejo além. Perdi o deslumbre pelo simples, talvez. 

É, isso faz sentido, afinal os dias que se seguiam, após aquele momento dourado em minhas manhãs, me deixaram amargurado. Os dias vinham com o vento, e minha única ânsia era pelo seu fim. Depois que o sol nascia eu só desejava que ele se fosse logo, só para no dia seguinte eu me sentar à beira da praia e vê-lo surgir novamente.

No entanto, devo dizer que o espetáculo do sol surgindo do mar, não era a única coisa que eu amava e desejava em meu dia.

O farol girava toda noite, sua luz viajava longe avisando a todos que ali estava, dizendo aos navegantes noturnos e até os perdidos, que ali havia um porto seguro. Me lembro que quando a noite chegava, ele se acendia e quem o fazia era o antigo e divertido Sr. Purah. Nome estranho tinha aquele velhinho, porém mais estranho eram seus olhos, cinzas e vivos de uma criança apaixonada pela vida, olhar que contrastava com seu rosto coberto de rugas e feições pesadas.




Na época ele cuidava do farol da Dobra, e eu o fazia companhia todas as noites. Aprendi muito com o velhinho, me divertia com suas estórias sobre o mar e os seres que nele habitam.   
 
Ficávamos no topo do farol conversando e admirando o mar, e o céu noturno. Fazíamos isto por horas. Muito aprendi com ele.

Mas o acontecimento mais vivo em minhas lembranças, foi a noite em que ganhei um par de sapatos do velho Purah. Ele disse que era presente de aniversário e que eu devia aceitar, o que fiz. Eu olhava os sapatos e ele falava de quão velhos eles eram, com os sapatos no colo ouvia-o dizer como ele próprio havia ganho-os de um navegante perdido, que havia chegado a Dobra graças ao farol. Dizia que tinha minha idade na época, o que deixou claro como os sapatos eram mesmo velhos, pois entre ele e eu havia pelo menos uns 60 anos de diferença na idade.

Aquela noite continuou como todas as outras e depois da madrugada fui para minha casa na encosta, deixando o sonolento Sr. Purah em seu posto. Segui o caminho que levava até a praia, carregava os sapatos debaixo dos ombros. A noite estava gelada e eu sentia uma tristeza no ar, uma espécie de mágoa pairando, e me rodeando, não pude deixar de me sentir só e triste.  Não queria ir para casa e segui para a praia, caminhei pelas ondas na escuridão da noite com apenas a débil iluminação de uma lua crescente. Depois de algumas horas caminhando me deitei na areia e fiquei observando as estrelas, elas estavam lindas e fiquei ali deslumbrado com a infinidade da criação. Acordei com água gelada batendo em meu corpo, me levantei assustado e me dei conta que havia adormecido na praia. O sol já estava alto no céu de modo que perdi o seu nascer. Olhei para ele com reverência enquanto me levantava, peguei os sapatos do sr. Purah e iniciei minha caminhada de volta para casa.

O dia passou rápido naquela quarta de verão, e logo o entardecer chegou, o sol já baixo nas montanhas a oeste enquanto a noite avançava sobre o mar. Como o de costume jantei, me banhei e fui para o farol, ver meu velho e idoso amigo. Mas logo na subida da encosta notei uma movimentação de pessoas logo acima, o que era bastante estranho, pois o velho Purah nunca recebia visitas, além de mim é claro. Subi, agora correndo. Ao chegar lá em cima, pude ver que muitas pessoas da vila ali estavam, avancei para dentro do farol ignorando todos que estavam ali fora. Lá dentro encontrei mais pessoas que conversavam, não costumava ir muito à vila, por isso não reconhecia quase ninguém, mas um rosto me era familiar, e foi com ele que fui falar, perguntando o que estava acontecendo e o porquê de toda aquela gente ali. O doutor me respondeu seca e brevemente.

Sr. Purah havia sofrido um ataque cardíaco e devido ao fato de estar sozinho não sobreviveu. Aquela notícia me atingiu como uma onda nas tempestades de inverno. Desabei meu corpo sobre uma poltrona atrás de mim mergulhado em pensamentos esentimentos. Fiquei em um estado de silêncio completo por algumas horas, pude ver as pessoas indo embora e alguém me perguntando se eu estava bem, a quem respondi que sim com um leve aceno de cabeça. Logo estava sozinho e já recuperado de meu transe subi a escadaria até o topo do farol, que se encontrava aceso. Fiquei ali prestando minhas últimas homenagens ao meu velho amigo, eu usava os sapatos que havia ganho de presente.

A noite passou e dormi sob a forte luz do farol, lá embaixo as águas ferozes de um mar que nunca mais seria o mesmo se agitavam embalando meu sono com sua velha canção.

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