Ne'oro a exilada - Introdução

 


Este livro se trata de uma obra biográfica. Um relato da vida e história de uma personagem que andou pelas cálidas e gritantes dunas de Nêbura trazendo caos e medo a toda gente. O ódio diz muito sobre a história de um homem e nessa história mostrará, a quem quer que se arriscar a leitura, como este sentimento nasce, cresce e devora o coração dos infelizes.

 

E a todo infeliz que não compreende o ódio eu de início já aviso. Corre e abranda esta chama pois uma mera fogueira pode queimar de todo a maior das florestas.

 
 

Este que lhe escreve é conhecido nestes novos tempos por Cretar Persio um sobrevivente do velho mundo e novo homem. Há muito tive vida transformada por uma força selvagem e devoradora de homens que cruzou meu caminho em tempos longínquos onde tudo era areia e fome. Esta força não carregava consigo um nome, e por muito tempo nem mesmo uma face. Caminhava oculta por sua máscara vazia, pelas cidades buscando um homem. Um homem que em uma noite de batalha cruzou seu caminho e viveu. Um homem que sua espada não foi capaz de cortar. Um homem que o semblante por motivo desconhecido e pavoroso fez sua lâmina parar.

 

Está figura passou a ser conhecida pelas terras por onde passou apenas como ne’oro. O temor reinava na face de todos que cruzavam seu caminho. Medo, morte e ódio eram a tríade que compunham o panteão sagrado erigido no templo de seu coração. Todos que a conheceram na época diziam ter conhecido o próprio demônio, um demônio que vestia branco e jamais se sujava com o sangue daqueles que matava.

 

Mas chega de assusta-los.

 

Entenderão que por de trás de todo homem voraz existe uma mente perturbada e um coração ferido. Todo homem oferece apenas o que possui.


Para situá-los melhor na história relatarei de maneira breve o início da vida desta criatura que conquistou honras e derrotas. Que matou sem saber o que é a vida.


Primavera do ano 440 da primeira Era.


Nasce na cidade nebulosa de Ne’oria a filha do grande conquistador General Baiôn Mantú líder da ordem Benevolência do Sangue. Ela é honrada e reverenciada com grande ardor pelos Generais das Velhas Ordens como a filha do Portador.


Primavera do ano 444.


Ao completar o quarto ano pronta para o desmame a pequena garota é retirada da mãe. O progenitor toma sua tutela como o Primeiro Pai e dá início aos seus treinamentos. Nestes primeiros anos ela tem quebrada toda sua inocência passando a se habituar com o sangue e a dor. O treinamento rigoroso quebra de início qualquer inocência e os considerados fracos se perdem na incerteza da morte.

É lhe imposta a disciplina do sangue e ela aprende a respeitar (temer) seus superiores.

A garota passa os próximos quatro anos se habituando ao sangue e a morte.



Primavera do ano 448.


A menina agora com oito anos termina sua passagem pelo Primeiro Pai. Não se vê mais nada do olhar de uma menina naqueles olhos cinzas e calejados. Suas primeiras cicatrizes são vistas no corpo, não fruto de combates mas das duras reprimendas do treinamento bruto de seu pai de sangue. 

Ela é entregue com seus colegas que não morreram para a tutela do Segundo Pai.

Nesta tutela começa o treinamento físico, as artes de combate são passadas da maneira apropriada a um povo belicoso. Ela é iniciada no credo das lâminas aprendendo a honrar e se prostrar diante dessas ferramentas da morte.


Primavera do ano 452.


Após seu décimo segundo aniversário a garota finaliza a segunda tutela e é recebida nos braços cruéis do Terceiro Pai. Aqui ela se torna oficialmente um soldado da Ordem.

Nesta tutela suas artes de combate são amplamente aperfeiçoadas, novas armas são apresentadas e é iniciado um processo que trabalha o psicológico dos jovens criando nesses grande tensão por humilhação, inferiorizando e destruindo qualquer traço de sentimento que possa ainda haver naquelas almas.

Porém essa atitude tem como intuito separar o joio do trigo.


Primavera do ano 456.


Na sua décima sexta primavera brota no coração da garota um ódio que não é ignorado pelo seu terceiro Pai. Assim ela é entregue à sua quarta tutela. Poucos passam nesta fase e a garota mesmo não entendia na época o critério de aprovação. Mais tarde descobre que a chave estava no ódio que seu olhar dirigia ao seu superior. Ódio que ela contém e guarda consigo por muito tempo.

Nos braços do Quarto Pai ela é considerada uma filha de sangue e ganha suas primeiras honrarias. Nessa tutela ela tem suas artes de combates refinadas ainda mais, e aprende a racionalizar seu ódio o transformando em uma força motriz na arte de matar. Aqui ela também inicia seu voto de castidade, voto que pode durar até o final da tutela do Sexto Pai, onde este é fechado. Passa a liderar os soldados rasos sob o comando do General. Sua capacidade de administrar o ódio na hora do combate passa a ser observada.

Aqui uma nova série de treinamentos extenuantes e longas campanhas de campo são impostas a ela onde sua mente e emocional são levados ao extremo.


Primavera do ano 460.


 

 

No fim da quarta tutela poucos são os que terminam com a mente intacta. Sendo a garota uma destas ela passa para a próxima tutela.

Sob os cuidados do Quinto Pai, a jovem agora nos seus vinte anos dá início aos estudos da arte do comando e a língua dos reis tendo assim o intelecto refinado. É iniciada também nas artes místicas e recebe sua primeira máscara branca, símbolo da supremacia dos ne’oros na arte de matar. Recebe iniciação nas artes secretas de combate dos Antigos Mestres da Lâmina Branca e aprende os conceitos da metalcinese pela primeira vez.


Primavera do ano 464.


No fim da tutela do Quinto Pai, este escolhe os 12 filhos mais promissores e estes seguem para a tutela do Sexto Pai.

Aqui ela se torna um filho alvo e recebe o traje branco de sangue, a vestimenta oficial dos guerreiros de elite.

Nesta fase recebe por fim o conhecimento oculto da magia prática desenvolvendo a maior das capacidades de combate dos mais poderosos guerreiros dessa raça, a metalcinese, a magia que permite o guerreiro mover com a vontade de sua mente o raro metal branco dos Ne’oros.


Primavera do ano 468.


Apenas os filhos alvos que dominam com maestria a metal cinese seguem para a nova e última tutela. Tendo a garota, agora mulher, demonstrado grande domínio do metal branco, ela e apenas outros 4 seguem para a tutela do último Pai.

Na sétima tutela o Pai é um dos grãos mestres da Lâmina Branca e refina a metalcinese dando aos filhos brancos, agora filhos da lâmina, a capacidade de manusear lâminas com a vontade de sua mente. Aqui nossa jovem domina o metal da arma escolhida por ela para trazer a morte aos seus oponentes. Escolhe duas lâminas circulares como grandes anéis de arremesso ultra afiados feitos em metal branco. Aprende a usá-los em combate onde se torna praticamente implacável, os guiando por sua vontade, fatiando os corpos de seus oponentes como uma tormenta de sangue. Se torna uma das mais temidas guerreiras dos Ne’oros. Nesta fase ela encontra o êxtase de matar entrando assim em um estado de consciência alterada, onde se sente como um deus que tira do mundo quem cruza seu caminho confrontando o credo de seu povo.


Agora que entendem como se deu o começo da vida desta figura que aqui lhes apresentarei cheio de honra e coragem, darei então início a narrativa, a qual me comprometo fazer da maneira mais verdadeira e imparcial que me é possível, relatando apenas os conhecimentos já documentados por mim e outras personagens que conheceram esta figura assustadora e magnética, garantindo assim a você a credibilidade do que conto.


Agradeço aos deuses por me permitirem a autoria desta obra e aos mortos que honraram os fatos que aqui coloco.


Que a coragem prevaleça no coração dos fortes e alcance os fracos.



 

 

 


0 comentários