DO DESABROCHAR DE EHE FE ROR

                                        

A muito tempo, onde hoje é localizada a grande floresta de Ehe Fe Ror, bem na região central do continente de Wak’an, havia apenas uma grande planície com vegetação baixa e algumas pequenas matas isoladas umas das outras. O Grande rio Iacan fazia seu caminho serpenteante, descendo das Terras-Altas até o centro do continente, e desaguava na Baía de Sinv, um dos poucos locais que eram ricos em fauna e flora daquela região. A Leste havia as Cordilheiras de Ninfen, que separavam as planícies descampadas das praias de águas cristalinas do Golfo-Médio. Esta área central localizada entre as Cordilheiras Ninfen e a Baía de Sinv, era chamada de Ehe Kur, o Descampado.

Ehe Kur era a casa do povo das matas, os fe’ rors. Era um povo que vivia no ritmo do vento, suave e tranquilo a maior parte do tempo, mas sabendo ser furioso e agitado quando necessário. Havia várias tribos espalhadas pela região de Ehe Kur, e dada a dificuldade de sobreviver naquela terra estéril, as tribos viviam em guerra constante, lutando pelas melhores áreas, por recursos e alimentos. Naquele tempo, os fe’ rors viviam assim como um furacão, o que devastava ainda mais aquelas terras já tão sofridas.

Existiam três tribos principais que eram as maiores responsáveis por aquele estado de guerra. Os Praieiros eram uma tribo de fe’ rors que viviam do outro lado das Cordilheiras de Ninfen, em meio as praias. Os Ribeirinhos viviam à beira do grande rio Iacan que cortava o centro de Ehe Kur. Por último, os Baíeiros, que viviam ao redor da Baía de Sinv. As três tribos ocupavam as melhores regiões, com os melhores recursos para sobrevivência de seu povo, mas não se contentavam com o que tinham e buscavam tomar das outras tribos as suas riquezas. Em meio a essa tensão entre as principais forças, as tribos menores que viviam espalhadas por Ehe Kur eram tragadas para o meio da guerra, com promessas de terras melhores, auxílio ou provisões. O que antes era um instinto de sobrevivência, se transformou em ganância e puro desejo egoísta, o que levou aquela terra a afundar ainda mais em direção a ruína completa.

Em meio ao cenário de guerra, na tribo dos Baíeiros nasceu um fe’ ror com olhos azuis, algo que nunca havia acontecido antes, pois todos os fe’ rors possuem olhos verdes de diferentes tonalidades, mas sempre verdes. No dia de seu nascimento, o Xamã da tribo anunciou a todos. “Azul é a cor de seus olhos, e Yahto deve ser o seu nome.” Ora, Yahto significa azul na linguagem antiga daquele povo. E assim foi feito, e Yahto cresceu como um fe’ ror alto e belo, dos cabelos da cor da terra, e diziam que o azul de seus olhos refletia o azul do próprio céu. Seu toque carregava o sopro da Primavera, e com ele tudo crescia com vigor redobrado, assim os campos dos Baíeiros prosperaram como nunca antes. Ele abominava a guerra e nunca pegou em armas, dizia que a matança entre pessoas do próprio povo era um dos crimes mais hediondos que poderiam ser cometidos pelos mortais.

Certo dia, Yahto estava numa de suas viagens por Ehe Kur, chegando até as Cordilheiras de Ninfen, e as atravessou. Ele buscava as praias ao Leste, pois a muito ansiava por conhecê-las. Seguiu seu caminho pelas montanhas até chegar nas praias, onde se maravilhou com o que via. A areia era branca como o sal, e seus dedos afundavam levemente conforme ele caminhava. As pequenas ondas saldaram seus pés, e conforme ele caminhava, chegaram até sua cintura. A água do Golfo-Médio era límpida e cristalina, de um azul esverdeado belíssimo. No horizonte a sua frente, ele podia ver uma ilha ao longe, além de toda a costa do Golfo e dos mares que se perdiam além. Yahto se banhou nas águas salgadas do mar e lá ficou durante o resto doa dia e da noite, sentindo a brisa marítima despentear levemente seus cabelos. Ainda sentado na praia, ele aguardava a chegada da manhã quando escutou o som de passos leves se aproximando pela praia. Ao olhar para trás, seu coração foi arrebatado. Uma fe’ ror se aproximava pelas suas costas, com passos delicados como o luar, seus cabelos eram longos e castanhos, e seus olhos verdes eram como as águas que Yahto se banhava. Ela se aproximou e se sentou ao seu lado, e sem dizer palavra, juntos assistiram ao nascer do Sol. Após algum tempo sentados em silêncio, eles conversaram. A fe’ ror se chamava Anuelin, e era filha do líder dos Praieiros, mas isso pouco importou para os dois, que passaram a se encontrar com frequência desde então.

Yahto e Anuelin viajaram juntos por toda a região de Ehe Kur, e um grande amor foi construído entre os dois. Ora, as duas tribos já estavam cansadas da guerra e viram com bons olhos a união entre eles. Desta maneira, a cerimônia de união também serviria como uma aliança entre as duas tribos, o que talvez viesse a trazer paz para aquela terra castigada.

A cerimônia foi marcada para o primeiro dia do ano, e seria realizada junto da chegada da Primavera, no dia de seu equinócio. Como ambas as tribos ficavam em locais opostos, a cerimônia foi feita no centro de Ehe Kur, em meio a um bosque de pinheiros. O local marcava a distância exata entre uma tribo e outra. Todos os líderes das duas tribos foram convidados, em sinal de respeito e boa aventurança. Mas uma tragédia ocorreu, e durante a cerimônia a tribo dos Ribeirinhos lançou um ataque surpresa e matou a quase todos presentes na cerimônia. Os Ribeirinhos ficaram sabendo da festividade e da presença dos líderes das tribos, e por isso planejaram o ataque, pois assim enfraqueceriam seus dois maiores inimigos. Uma grande tragédia, de fato.

Naquele dia terrível, Anuelin foi morta durante o ataque, mas Yahto sobreviveu. Ele havia sido ferido e deixado desacordado, mas acordou no local horas depois. Em meio ao pesar e desespero, ele encontrou sua amada Anuelin. Após lhe dar seu último beijo, ele a enterrou no local, junto dos outros que faleceram durante o ataque. Foram cavados vários túmulos naquele dia, sendo o de Anuelin o mais grandioso. Yahto, imerso em lamento e fúria, sucumbiu aos seus ideais e pegou em armas pela primeira e última vez em sua vida. Ele seguiu os assassinos de sua amada e os surpreendeu acampando perto dali, em meio a uma grande festa. Yahto os pegou de assalto e matou a todos, dentre eles, os líderes dos Ribeirinhos também estavam presentes, pois participaram do ataque. Mas Yahto foi gravemente ferido durante o combate, e teve força suficiente apenas para retornar ao local de descanso de Anuelin, onde faleceu.

Naquele dia trágico, todas as três tribos perderam suas lideranças, resultando num caos ainda maior do que antes. A já devastada terra de Ehe Kur foi assolada por mais e mais guerras.

Se diz que Ehe’ Yankay, a Deusa Criadora, se apiedou daquelas terras e daquele casal de amantes terrivelmente assassinados. Então ela fez com que, do túmulo de Anuelin, nascesse uma grande árvore que ainda não existia naquele mundo. Ela era parente dos pinheiros, mas era muito maior e imponente. Seu tronco era reto e cumprido, somente tendo grandes galhos arqueados para cima quando já perto de sua copa, e dessa árvore brotaram grandes sementes marrons em formatos de lágrimas, do tamanho de um punho. A árvore nasceu do espírito de Anuelin, e cada galho era o espírito de um dos fe’ rors mortos naquele dia. Quanto a Yahto, ele foi transformado por Ehe’ Yankay em um grande pássaro. Sua plumagem era azul celeste, quase que por inteiro, pois sua cabeça e peito eram negros como a noite, como um símbolo de seu luto eterno. Desta forma, Yahto se tornou o Guardião da grande árvore, e transportava as suas sementes por toda Ehe Kur, a transformando lentamente numa grande e abundante floresta, finalmente trazendo paz aquelas terras.

A grande árvore passou a ser conhecida como Ehe’ Ka, a Árvore-Mãe de Ehe Fe Ror, pois foi dela que se originou a grande floresta que agora existe na região. Ela tem cerca de quatrocentos pés de altura e seu tronco é grosso e forte como as raízes de uma montanha. Seus longos galhos arqueados ainda dão sementes, as quais dizem que Yahto continua a transportar pela mata, a mantendo sempre verde e viva.


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